Pete Hines afirma que Bethesda foi “danificada e desmantelada” após integração à Microsoft e diz que estúdio deixou de ser “autêntico e genuíno” — por que ele se aposentou em 2023
Ex-chefe de marketing da Bethesda diz ter visto o estúdio ser maltratado e ter perdido autonomia; decisões sobre exclusividade e atrasos em Starfield teriam pesado na escolha de deixar a empresa
Pete Hines, veterano de longa data da Bethesda Softworks e ex-diretor de marketing, disse que a editora foi “danificada e desmantelada” antes de sua aposentadoria, anunciada em 2023. Em uma entrevista ao podcast Firezide Chat, Hines relatou que a decisão de sair foi motivada mais pela sensação de impotência diante das mudanças internas do que por uma simples questão de timing.
Momento da saída e o papel dos atrasos de Starfield
Hines explicou que sempre teve em mente que faria a transição por volta do lançamento de Starfield, mas que o processo acabou sendo apressado por questões internas. Segundo ele, embora a proximidade do lançamento tenha sido um fator — e ele reconheça a ajuda do colega Todd Howard em momentos difíceis — a razão principal foi ter chegado a um ponto em que não conseguia mais exercer o papel que julgava necessário para proteger a cultura e o funcionamento do estúdio.
“Eu simplesmente cheguei a um ponto de sim, [a Bethesda] precisa de mim, e eu sou impotente para fazer o que penso que precisa ser feito para dirigir este lugar corretamente, para proteger essas pessoas, para manter aquilo que trabalhamos tanto para criar”, afirmou Hines. Ele disse ter percebido que não conseguiria evitar que a empresa fosse “danificada e desmantelada” e que não ficaria para assistir a isso acontecer.
A aquisição pela Microsoft e as decisões sobre exclusividade
O contexto das críticas de Hines inclui a aquisição da ZeniMax Media, controladora da Bethesda, pela Microsoft — anunciada em 2020 por US$ 7,5 bilhões e concluída em 2021. Hines afirmou que parte da frustração vinha de decisões como tornar alguns títulos exclusivos do Xbox, enquanto outros jogos populares permaneciam multiplataforma em acordos diferentes.
Ele lembrou que houve momentos em que ficou confuso com políticas de portas fechadas para certas plataformas, chegando a descrever essa parte do processo como “a pior”. Em 2023, e-mails tornados públicos já haviam mostrado a perplexidade de Hines diante dessas escolhas de exclusividade, que geraram discussões internas sobre posicionamento e alcance dos jogos.
Impacto na equipe, saúde mental e o limite da permanência
Hines contou que tentar cumprir seu papel em um ambiente que mudava o tempo todo cobrou um preço pessoal. Ele afirmou que o esforço para manter a Bethesda funcionando de forma eficiente e proteger as pessoas da empresa acabou afetando sua saúde mental, e que a decisão de sair foi tomada em 2022, antes mesmo do lançamento de Starfield.
“Toda vez que Todd atrasava Starfield, eu pensava: ‘mais oito meses aqui'”, disse Hines, citando as consequências emocionais dos sucessivos adiamentos. Ele também elogiou Howard por ter sido um apoio naquele período e por ajudar sua saída a acontecer de forma que preservou sua sanidade.
Visão sobre autenticidade e legado
Além de relatar o desgaste pessoal e profissional, Hines não poupou críticas ao que viu como perda de autenticidade nas práticas corporativas após a integração à Microsoft. “Eu ainda acho que a Bethesda é apenas parte de algo que não é autêntico e não é genuíno”, afirmou, acrescentando que isso não deveria surpreender observadores externos.
Hines evitou apontar eventos, pessoas ou decisões específicas como gatilhos finais de sua saída, preferindo descrever um processo mais amplo de mudança institucional. Ele também ressaltou que, historicamente, a Bethesda tentou fazer o que dizia e manter uma postura genuína — algo que, segundo ele, passou a mudar.
Desde sua aposentadoria, Hines tem sido franco sobre as transformações na empresa; em entrevistas posteriores, como recordou em 2025, ele relembrou os primeiros anos de sua carreira na Bethesda e declarou que “não é a mesma”. Essas declarações alimentaram um debate sobre como grandes aquisições e estratégias de plataforma têm alterado a cultura e o modelo de trabalho de estúdios tradicionais de videogame.
Enquanto isso, a discussão sobre exclusividades, serviços de assinatura e autonomia criativa segue sendo um dos pontos centrais no setor — e a experiência de Hines fornece uma perspectiva interna sobre os efeitos humanos dessas decisões.
