Influencer Jefferson Souza é investigado por usar IA para sexualizar jovens evangélicas em igrejas; polícia apura deepfakes e possíveis crimes contra menores
Acusado admitiu usar fotos de fiéis como base para criar vídeos com deepfake; inquérito apura simulação de cena sexual envolvendo adolescentes
O influenciador digital Jefferson de Souza, conhecido nas redes como “Silvio Souza” e dono do canal “Humor do Crente”, é investigado pela Polícia Civil de São Paulo por suspeita de usar técnicas de inteligência artificial (deepfake) para manipular e sexualizar imagens de jovens evangélicas dentro de templos. Em vídeos publicados no TikTok, YouTube e Instagram — perfis que somam cerca de 50 mil seguidores — ele chegou a criticar as roupas usadas por fiéis da Congregação Cristã do Brasil (CCB), afirmando que os vestidos “marcam o corpo”.
Como funcionavam os vídeos e a admissão do uso de IA
Jefferson, de 37 anos, humorista e borracheiro, afirmou publicamente e também à polícia que utiliza fotografias postadas por frequentadoras das igrejas como base para criar conteúdos animados por IA. Em vídeos, ele descreve o processo: “Pego a foto, as irmãs postando foto de costa, aí eu jogo na IA, a IA faz dançar.” Em outras publicações, criticava fiéis que tiram fotos dentro do templo. Em nota, a defesa do influenciador disse que as publicações tinham “intuito de sátira e críticas de costumes”.
Em um vídeo divulgado no domingo de Páscoa, Jefferson chegou a pedir desculpas à Congregação Cristã do Brasil pelas críticas às roupas e prometeu “ser mais cauteloso”, mas não comentou publicamente sobre os deepfakes em que aparecem adolescentes e jovens.
Investigação policial e enquadramento legal
O caso passou a ser investigado em fevereiro pela 8ª Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), em São Mateus, Zona Leste de São Paulo, após uma família registrar ocorrência. A delegada Juliana Raite Menezes informou que o inquérito apura a simulação de cena de sexo ou pornografia envolvendo menor por meio digital, prevista no artigo 241-C do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), cuja pena varia de 1 a 3 anos de reclusão, além de multa. A polícia também investiga se houve crime de difamação contra outras jovens expostas.
Segundo a delegada, há indicativos de que algumas das imagens manipuladas mostram adolescentes — uma das vítimas ouvidas pelo g1 tem 16 anos. O caso tem acompanhamento do Ministério Público e da Justiça, e as autoridades tentam identificar e localizar mais vítimas.
Vítimas relatam constrangimento e tentativas de remoção de conteúdo
Uma estudante entrevistada pela reportagem disse que teve a foto retirada sem autorização e incluída em uma montagem com outras mulheres sensualizando, o que lhe causou constrangimento. “Eu sou muito envergonhada, então não queria ter sido exposta. Eu tomo cuidado e também fico com medo disso afetar meu convívio social”, afirmou a jovem, que compareceu à delegacia acompanhada pelos pais.
Outra vítima relatou ter feito várias denúncias e ter entrado com processo contra quem usou sua imagem. Em razão do episódio, a estudante afirmou que passou a evitar tirar fotos de si mesma e que o caso mudou seu comportamento nas redes sociais.
Reações de plataformas, especialistas e da Igreja
As plataformas reagiram: o TikTok informou adotar tolerância zero para exploração sexual infantil e remover conteúdos desse tipo; o YouTube afirmou ter retirado vídeos que violavam suas diretrizes; a Meta (Instagram e Facebook) não comentou. O g1 procurou o SBT para saber sobre o uso de logotipos e imagens de apresentadores nos vídeos, mas não obteve retorno até a última atualização da reportagem. A Congregação Cristã do Brasil disse não possuir registro formal de membros e manifestou apoio à adoção das medidas legais cabíveis.
Especialistas consultados destacam que o uso de IA não afasta a responsabilidade de quem cria e divulga material manipulador. A pesquisadora Laura Hauser (PUC-SP) afirmou que “não é a vítima que tem que se cuidar. O predador que deve ser intimado a melhorar.” Juliana Cunha, diretora da SaferNet, alertou que casos deste tipo tendem a crescer com a evolução tecnológica e defendeu que vítimas não se sintam culpadas. Um levantamento da SaferNet citado na apuração aponta registros de casos de deepfakes sexuais relacionados a escolas em São Paulo.
Algumas postagens misóginas atribuídas a Jefferson foram removidas por ele ou pelas empresas de tecnologia, mas a investigação segue para apurar a autoria, extensão dos danos e possíveis responsabilizações penais e cíveis.
A polícia orienta vítimas a registrarem ocorrência e guardar provas (prints, links e arquivos) para auxiliar na investigação. O caso reforça debate sobre como leis existentes se aplicam ao ambiente digital e sobre a necessidade de políticas públicas e tecnológicas para prevenir e responder a crimes envolvendo deepfakes.
