Mixtape: review completo — por que o jogo da Annapurna virou polêmica nas redes apesar da trilha sonora impecável e jogabilidade passiva

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Mixtape: review completo — por que o jogo da Annapurna virou polêmica nas redes apesar da trilha sonora impecável e jogabilidade passiva

Narrativa curta de pouco mais de 2 horas que evoca John Hughes, agrada pela trilha licenciada, mas sofre com repetição, detalhes imprecisos e interação quase inexistente

Mixtape, novo lançamento publicado pela Annapurna e desenvolvido por Beethoven & Dinosaur, dominou conversas nas redes sociais no fim de semana de estreia. De um lado, a imprensa celebrou a obra; do outro, parte do público criticou o formato e a execução — especialmente a sensação de que o jogo “se joga sozinho”, com sucessos garantidos independentemente dos inputs do jogador.

O formato e a polêmica

Mixtape é essencialmente uma experiência narrativa com pouca interação ativa — mais próximo de um walking simulator ou de uma visual novel do que de um jogo tradicional. Isso não é novidade na história dos videogames, mas tornou-se alvo de reprovação para usuários que esperavam maior agência. Trechos do gameplay viralizaram mostrando segmentos em que as ações do personagem parecem automatizadas, o que alimentou debates sobre o que deve ser considerado jogo e sobre expectativas do público.

Apesar disso, há momentos pontuais em que o controle cria interações interessantes com a trilha e o ritmo, mas são exceções em uma campanha que dura pouco mais de 2 horas e meia.

Influências, estética e um passado mal definido

Logo nos minutos iniciais, percebe-se a tentativa consciente de evocar o tom e a estética dos filmes de John Hughes — como Clube dos Cinco e Curtindo a Vida Adoidado — além de referências literárias no tom coming of age que lembram Alta Fidelidade, de Nick Hornby. No entanto, o jogo parece indeciso sobre em que década se passa: elementos das décadas de 1980 e 1990 aparecem misturados, sem ancoragem clara. Essa indefinição se manifesta em detalhes como a presença simultânea de toca-fitas e CDs queimados, e em gírias anacrônicas na fala dos personagens.

Alguns deslizes de pesquisa também saltam aos olhos: a protagonista usa um lápis para rebobinar uma fita K7 girando no sentido errado, mesmo com um toca-fitas funcional a poucos centímetros, e uma locadora retratada no jogo esconde seus lançamentos em locais pouco verossímeis. Esses pequenos erros comprometem a sensação de autenticidade que a proposta busca.

Som, representatividade e repetição

O ponto mais elogiado de Mixtape é a trilha sonora licenciada: nomes como The Cure, Joy Division, Roxy Music e Smashing Pumpkins aparecem e dão peso emocional às cenas. Para quem aprecia trilhas bem selecionadas, o jogo oferece momentos sonoros memoráveis que sustentam boa parte da experiência.

Por outro lado, chama atenção a ausência de manifestações artísticas não vinculadas à cultura branca — por exemplo, quase nenhum rap ou referências multiculturais — algo que, embora coerente com a proposta de retratar um trio de jovens de classe média-alta norte-americana, denuncia uma visão limitada por quem escreveu a história.

Visualmente, Mixtape repete várias imagens e alegorias: a metáfora do voo é usada diversas vezes em contextos diferentes — correndo pela grama, dentro de um carro, em cenas intimistas e até em sequência em preto e branco. Em pouco tempo, a repetição torna-se cansativa e evidencia falta de repertório narrativo.

Momentos de gameplay e cenas que funcionam

Mesmo em meio a críticas, o jogo tem pontos altos. Segmentos mais ativos, como a parte de baseball, se destacam; a condução de uma queima de fogos e uma sequência ao som de Smashing Pumpkins também são citadas como bons usos da linguagem dos videogames. Há ainda uma cena polêmica — um beijo de língua entre menores de idade — que gerou discussões, mas que, segundo leitores do jogo, funciona no contexto narrativo e evoca a sensação de desconforto requerida pela memória retratada.

O problema é que essas passagens interativas são exeções: a maior parte da jornada é contemplativa, e sem opções de diálogo ou consequências significativas, o jogador muitas vezes fica na posição de espectador.

Vale a pena jogar?

Mixtape é um produto curto, barato e relativamente inofensivo: entrega uma história concisa com direção de arte caprichada e uma trilha sonora que sustenta boa parte da experiência emocional. Para fãs de narrativas lineares e jogadores que apreciam experiências contemplativas, o jogo provavelmente funciona bem como um conto de formação com estética nostálgica.

Para quem espera gameplay substancial, escolhas que importem ou uma recriação histórica mais fiel, Mixtape tende a frustrar. A impressão final é a de um título competente, porém passivo e pouco memorável a longo prazo — capaz de monopolizar conversas por um tempo por conta das polêmicas, mas improvável de figurar em listas de grandes clássicos.

Dados técnicos: publisher Annapurna; desenvolvedora Beethoven & Dinosaur; plataformas PC, PS5 e Xbox Series X/S; lançamento em 07/05/2026; tempo de review: cerca de 3 horas. A campanha oficial relata duração média de pouco mais de 2:30 horas.

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