The Punisher: One Last Kill — Crítica e contexto
Um retorno à violência enxuta: Jon Bernthal retoma Frank Castle em um especial que se apoia mais na ação do que em reinventar o personagem
The Punisher: One Last Kill chega ao Disney+ como um “Special Presentation” de 45 minutos que coloca Jon Bernthal novamente no papel de Frank Castle. Dirigido por Reinaldo Marcus Green (de We Own This City e King Richard), que também coassina o roteiro com Bernthal, o especial privilegia cenas de ação intensas e um ritmo enxuto em detrimento de conexões profundas com o restante do MCU.
Roteiro e ligação com o MCU
O curta parece se situar logo após a fuga de Frank vista na cena pós-créditos de Daredevil: Born Again (Temporada 1). Ainda assim, há pouquíssima teia narrativa que o ligue diretamente a Born Again ou a outras produções da Marvel. Isso funciona a favor do projeto: trata-se de uma história autônoma, sem a necessidade de revisitar subtramas ou explicar longos intervalos. Por outro lado, a ausência de um vínculo mais sólido com a cronologia do MCU é uma oportunidade perdida para aprofundar conflitos preexistentes, como a rivalidade com o prefeito Fisk ou a Anti-Vigilante Task Force.
Ação, ritmo e direção
O principal trunfo de One Last Kill é seu formato curto. Em 45 minutos, o roteiro evita os arrastos que, por vezes, prejudicaram a série da Netflix — onde longos períodos de preparação interrompiam o ímpeto do personagem. Aqui, a narrativa avança rápido de encontro em encontro sangrento, lembrando clássicos modernos de ação como The Raid e John Wick. Há até um toque de videogame na forma como Frank alterna armas e recolhe itens dos inimigos derrotados, o que confere uma sensação quase mecânica à carnificina.
Reinaldo Marcus Green traz uma estética mais dinâmica do que muitas produções anteriores do personagem no MCU. As sequências em um bloco de apartamentos de Little Sicily se destacam: longos tiroteios coreografados, ambiente claustrofóbico e escalada constante de tensão culminam em uma orgia de violência centrada em Bernthal.
Personagem e atuação de Jon Bernthal
Bernthal carrega o filme praticamente sozinho. Nos minutos iniciais, Frank aparece imerso em paranoia, tristeza e raiva — uma construção psicológica que ocupa pouco tempo antes de dar lugar à ação desenfreada. A interpretação do ator é magnética e imediata; sem sua presença, o especial dificilmente funcionaria. A abordagem continua a privilegiar um Frank mais humano, atormentado e, por vezes, autodestrutivo, em contraste com a versão dos quadrinhos, mais estoica e implacável.
Essa diferença de tom é um dos pontos centrais de debate entre fãs: enquanto os quadrinistas (como Garth Ennis) apresentaram Castle como um símbolo frio de punição, o MCU consolidou uma variante mais emotiva e volátil. One Last Kill não altera essa equação — ao contrário, reforça o Frank de Bernthal, cujo comportamento às vezes remete mais a arquetípicos do cinema de vingança do que ao vigilante dos gibis.
Pontos fracos e elenco de apoio
O restante do elenco cumpre papel funcional, mas pouco mais. Jason R. Moore retorna como Curtis Hoyle e oferece o contraponto humano necessário para que os conflitos internos de Frank tenham voz, e Judith Light aparece em cenas pontuais que adicionam textura emocional — mas sua personagem é subaproveitada e praticamente desaparece antes do fim. Em suma, quando não é sobre Frank Castle, o especial demonstra interesse apenas superficial pelos demais personagens.
Também há críticas legítimas a fazer sobre a fidelidade ao material de origem. A versão MCU tende a explorar um Frank mais vulnerável e impulsivo, e espectadores que esperam uma adaptação fiel à frieza e disciplina do Frank de quadrinhos podem se frustrar.
Veredito — por que vale a pena (mesmo sendo “mais do mesmo”)
The Punisher: One Last Kill comprova o valor do formato curto da Marvel: é direto, focado e entrega exatamente o que promete a quem procura cenas de ação bem executadas e uma performance intensa de Jon Bernthal. O especial não reinventa o personagem nem corrige as divergências entre o MCU e os quadrinhos, mas funciona como um exercício eficiente de ação e como uma vitrine para o Frank de Bernthal em seu estado mais cru.
Se você busca inovação no tratamento psicológico do personagem, pode sair desapontado. Se o objetivo é ver Frank Castle à solta em sequências bem dirigidas e sem tempo para enfeites, One Last Kill cumpre a missão. Resta a esperança de que futuros projetos explorem mais a fundo tanto as repercussões narrativas dentro do MCU quanto personagens coadjuvantes com maior densidade.
Disponível no Disney+, o curta é uma boa pedida para fãs de ação e de Jon Bernthal — e um lembrete de que, às vezes, cortar o excesso e concentrar-se no essencial é suficiente para satisfazer o público.
