Instrutores de fitness criados por IA: como identificar anúncios que prometem perder 18 kg em 28 dias, parecer 20 anos mais jovem e outras promessas irreais
Investigação aponta que anúncios com personagens gerados por IA difundem transformações corporalmente implausíveis para vender assinaturas de apps de treino
Uma investigação da BBC encontrou dezenas de anúncios de aplicativos e programas de condicionamento físico que usam instrutores e testemunhos criados por inteligência artificial para prometer resultados rápidos e dramáticos. Em muitos casos, as peças não deixam claro que as pessoas mostradas não existem, e apresentam imagens de “antes e depois” e alegações — como perder 18 quilos em 28 dias ou parecer duas décadas mais jovem em poucas semanas — que especialistas consideram cientificamente implausíveis.
O que a investigação da BBC revelou
Os anúncios analisados pela reportagem exibiam personagens gerados por IA em formatos variados: entrevistas ao estilo podcast com uma falsa instrutora, um suposto sargento do exército promovendo treinos milagrosos, depoimentos de mulheres em uma praia e palestras simuladas com plateia também criada por IA. Em muitos vídeos não havia aviso claro de que o conteúdo foi produzido artificialmente.
Segundo a BBC, as peças violam as regras de publicidade do Reino Unido por transmitirem mensagens enganosas e difíceis de comprovar. As campanhas tinham como objetivo principal atrair assinaturas de aplicativos de fitness usando promessas de resultados rápidos e transformadores.
Por que essa estratégia tem crescido
Especialistas apontam que a combinação entre ferramentas de geração de imagem e vídeo acessíveis e a lógica econômica das redes sociais cria estímulo para produzir conteúdo em grande volume. O professor Andy Miah, especialista em IA da Universidade de Salford, afirma que esse fenômeno é “enorme” e que os usuários, em busca de orientação para saúde e aparência, acabam sendo atraídos por promessas fáceis.
Outro fator é a capacidade dos personagens de IA de publicar continuamente: diferentemente de influenciadores reais, eles não precisam de pausas nem de presença física, e os algoritmos das plataformas podem amplificar rapidamente formatos que geram engajamento.
Riscos à saúde e à autoestima
Profissionais do setor de condicionamento físico também alertam para consequências práticas e psicológicas. David Fairlamb, treinador com três décadas de experiência, considerou os anúncios “muito errados, muito enganosos e extremamente preocupantes para os mais jovens”. Ele afirma que transformações prometidas em 28 dias não são realistas e lembra que programas gerados por IA não consideram lesões, condições de saúde individuais ou a necessidade de acompanhamento profissional, o que aumenta o risco de danos físicos.
A filha de Fairlamb, Georgia Sybenga, observa que até pessoas acostumadas às redes sociais às vezes têm dificuldade em distinguir o que é real, e que a exposição contínua a corpos idealizados pode prejudicar a autoestima de jovens e adultos.
O que dizem os reguladores e as plataformas
A Autoridade de Normas Publicitárias do Reino Unido (ASA) informou que o uso de IA em publicidade não é proibido por si só; o que importa é se a mensagem é enganosa ou potencialmente prejudicial. Adam Davison, diretor de ciência de dados da ASA, disse à BBC que o órgão recebeu cerca de 300 reclamações sobre publicidade gerada por IA no ano passado e que um dos desafios é que, às vezes, nem mesmo os reguladores conseguem determinar facilmente se um anúncio foi produzido com inteligência artificial.
Em resposta à investigação, a ASA tomou medidas contra anunciantes que fizeram alegações consideradas improváveis de serem comprovadas. Como muitos desses anunciantes não tinham histórico de infrações, receberam “avisos de aconselhamento” com orientações sobre como cumprir o código de publicidade.
Plataformas como TikTok e Meta afirmam exigir identificação de conteúdos gerados por IA, mas a BBC encontrou casos em que avisos estavam ausentes ou pouco claros. O TikTok afirma ter rotulado mais de 1,3 bilhão de vídeos gerados por IA até o momento, e a Meta diz avaliar sinais deixados por ferramentas de produção externas. Ambas as empresas não comentaram publicamente sobre casos específicos identificados pela reportagem.
Como usuários podem se proteger
Especialistas recomendam cautela ao consumir dicas de condicionamento físico nas redes sociais: desconfiar de promessas de resultados muito rápidos, checar credenciais dos instrutores, buscar sinalização clara de que o conteúdo é gerado por IA e consultar profissionais de saúde ou educação física antes de seguir programas intensos. Também é importante lembrar que transformações exibidas em anúncios podem ser fabricadas ou exageradas.
Enquanto reguladores e plataformas amadurecem regras e ferramentas de identificação, o cenário permanece propenso a mensagens enganosas. Pesquisadores e profissionais pedem maior transparência das empresas e intervenção regulatória mais firme para evitar danos físicos e psicológicos decorrentes de expectativas irreais.
Em síntese: a tecnologia que permite criar instrutores perfeitos em minutos também facilita a circulação de promessas irreais. Identificar sinais de alerta — como resultados garantidos em poucas semanas, ausência de identificação de IA e depoimentos sem verificação — é o primeiro passo para não ser enganado.
