Por que jovens da Geração Z estão voltando a usar iPods em 2026: fuga de notificações, mais foco e nostalgia que impulsiona vendas no mercado de usados

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Jovens da Geração Z voltam a usar iPods para escapar de notificações e redes sociais

Dispositivo sem notificações, sem algoritmos e com ritual manual de transferência de músicas ganha espaço em treinos, estudos e deslocamentos

O ritual lembra meados dos anos 2000: conectar um fone com fio, transferir músicas pelo computador e escolher manualmente o que tocar. Em 2026, porém, a cena acontece com jovens que optam por iPods em vez do celular para ouvir música durante a corrida, a musculação, os estudos e os deslocamentos do dia a dia. O motivo: reduzir distrações e recuperar um controle que as plataformas de streaming e as redes sociais tiraram.

Quem está adotando o iPod e como usam

Usuários ouvidos pelo g1 descrevem motivos semelhantes. Lisandra Reis, 29 anos, diz que o celular chegou a atrapalhar treinos porque notificações despertavam curiosidade. “Eu saía para correr e acabava parando porque chegava alguma notificação”, conta. Emanuelle Assunção, 27, comprou um iPod Touch de segunda mão por R$ 230 em 2024 e usa o aparelho em treinos de musculação, leituras e viagens de carro por aplicativo. Cláudio Wollace, 26, adquiriu um iPod Nano por R$ 130 em 2025 e o leva para a faculdade e a academia.

Para muitos, a ausência de algoritmos é um diferencial: sem sugestões infinitas das plataformas, o usuário ouve apenas o que escolheu colocar no aparelho. E parte do prazer vem justamente do processo manual — baixar faixas no computador e transferi-las para o iPod — que alguns consideram “revigorante”.

Mercado de usados e restauração: busca em alta

O interesse por iPods também aparece nos números das plataformas de revenda. No Enjoei, o valor total de iPods vendidos no primeiro trimestre de 2026 foi 47% maior do que no mesmo período de 2025. Na OLX, as buscas por iPods cresceram 18,9% em abril de 2026 na comparação com abril de 2025; de janeiro a abril de 2026 houve alta de 22% frente ao mesmo período do ano passado.

Há ainda uma comunidade dedicada a restaurar aparelhos antigos, trocando baterias e ampliando armazenamento para manter os iPods úteis tanto como objeto afetivo quanto como ferramenta diária. Entretanto, a popularidade crescente empurrou preços de modelos raros para patamares elevados: um iPod Classic usado pode superar R$ 1.000 em sites de revenda.

O que mudou no uso dos iPods nos últimos anos

Modelos como o iPod Touch permitiam instalar apps como o Spotify até recentemente, mas a compatibilidade tem sido interrompida: em 2026, o Spotify não aparece como compatível com nenhum modelo de iPod na App Store, o que forçou parte dos usuários a voltar ao método tradicional de transferência de arquivos. Para alguns, isso é um inconveniente; para outros, é parte do atrativo — a música volta a ser uma escolha deliberada, não um fluxo infinito conduzido por algoritmos.

Além disso, muitos escolhem fones com fio e players dedicados por uma sensação material que o Bluetooth elimina: o cabo, dizem usuários e especialistas, cria uma conexão física e um limite perceptível entre o ouvinte e o mundo digital.

Por que o fenômeno acontece: autonomia, nostalgia e recusa simbólica da hiperconectividade

Especialistas consultados relacionam o retorno dos iPods a uma busca por limites claros na relação com a tecnologia. Filipe Esposito, especialista em Apple com 17 anos de acompanhamento da empresa, lembra que o iPod se consolidou graças à combinação com o iTunes e a iTunes Store, que popularizou a compra de faixas avulsas por US$ 0,99 (valor que na época equivalia a cerca de R$ 1,80) e tornou o ecossistema atraente.

Angelica Mari, pesquisadora em cyberpsicologia, interpreta a tendência como uma “recusa simbólica da hiperconectividade” e uma tentativa de diferenciação social. Segundo ela, o ato de baixar músicas e atualizar playlists manualmente devolve autonomia ao usuário e impõe um limite que as plataformas não permitem: quando a playlist acaba, não há uma sequência automática sugerida que o prenda em um ciclo.

O movimento também tem componente afetivo: muitos jovens que não tinham condições de comprar um iPod na infância agora resgatam o desejo e a memória afetiva do objeto — seja pelo design, pela usabilidade simples ou pela imagem cultural associada ao player.

Na prática, essa escolha implica trocar conveniência por controle: menos integração com serviços de streaming, mais preparação prévia (selecionar e transferir faixas) e, para alguns, uma melhoria percebida na qualidade sonora.

Enquanto o mercado de tecnologia segue empurrando dispositivos multitarefa, uma parcela da Geração Z prefere dissociar consumo de conteúdo e comunicação, usando o iPod como um filtro que protege momentos de foco e, ao mesmo tempo, resgata um ritual que combina nostalgia e intencionalidade.

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