Rick and Morty temporada 9 estreia com espetáculo visual, mas erro ao reescrever Evil Morty deixa fã desanimado
Première ‘There’s Something About Morty’ traz batalhas grandiosas e vilã coletiva, mas a abordagem a Evil Morty divide
Atenção: o texto abaixo contém spoilers completos da primeira episódio da 9ª temporada de Rick and Morty.
A nova temporada de Rick and Morty começa como muitos esperavam: com um episódio de mitologia que avança a narrativa maior da série e traz de volta um dos personagens mais intrigantes do universo, o Evil Morty. Intitulado There’s Something About Morty, o episódio impressiona no quesito visual e nas cenas de ação — porém peca ao retratar uma versão do Evil Morty que muitos fãs podem considerar divorciada da sua complexidade original.
O problema com Evil Morty
Evil Morty já foi construído como um Morty que buscava liberdade do ciclo destrutivo entre Ricks e Mortys, uma figura quase trágica que conquistou espaço não só por sua inteligência, mas por sua motivação política e existencial. Neste primeiro episódio da nona temporada, no entanto, a opção criativa foi transformá-lo em uma espécie de parceiro de Rick — e até rival emocional, um Morty ciumento que disputa a atenção do protagonista.
Para quem acompanhou a trajetória do personagem — do arquiteto frio que manipulou o Conselho das Ricks até o estrategista que derrotou Rick Prime — essa alteração soa estranha. A sensação que fica é a de que o roteiro não soube como usar um personagem que, teoricamente, já alcançou seu objetivo maior: livrar-se da opressão dos Ricks. A alternativa sugerida por alguns críticos seria aposentá-lo de forma coerente; a transformação em antagonista possessivo pode subutilizar o potencial dramático do personagem.
O que funciona: escala, animação e a ameaça coletiva
Mesmo com esse deslize narrativo, o episódio acerta em muitos pontos. A vilã conhecida como a Collective — interpretada pela atriz Tilda Swinton — funciona como uma ameaça à altura, lembrando uma mistura de Galactus com os Borgs, capaz de justificar a união de duas mentes supergênias rumo ao confronto. As cenas de combate, incluindo a sequência na chamada Bunker Dimension, são um show: há clara influência estética do anime, com momentos que remetem a Dragon Ball, quando os combatentes se agigantam em energia e os nanobôs se enfrentam.
Rick and Morty sempre se destacou entre os títulos do Adult Swim pela qualidade de animação, e aqui essa diferença fica ainda mais evidente. A escala da destruição, a coreografia das lutas e o clima épico elevam o episódio, entregando entretenimento visual que tende a agradar aos espectadores que buscam espetáculo.
Dublagem, sutilezas e alívio cômico
Outro ponto positivo é a atuação de Harry Belden, responsável pelas vozes de Morty e Evil Morty. O intérprete separa os dois personagens com nuances sonoras sutis e eficientes — há momentos em que Evil Morty ironiza seu contraponto, e a dublagem acerta o tom. Além disso, o roteiro usa com inteligência a previsibilidade de Rick contra ele próprio, garantindo reviravoltas divertidas e um desfecho que explora a conhecida aversão do cientista a mexer com viagem no tempo.
Conclusão: divertido, mas potencial desperdiçado
Em suma, a estreia da nona temporada de Rick and Morty é, em grande parte, divertida e visualmente impressionante. There’s Something About Morty entrega ação em larga escala, uma vilã ameaçadora e momentos de dublagem que funcionam. Ainda assim, a principal crítica permanece: a forma como Evil Morty é reposicionado tende a diminuir a força temática que o personagem carregava.
Fica a expectativa de que, nas próximas temporadas, os roteiristas encontrem maneiras de resgatar a profundidade do antagonista — ou que, ao menos, o transformem em algo narrativamente coerente com sua história prévia, evitando reduzir um arco potente a uma rivalidade de superfície.
