Como a IA virou arma de guerra para criar vídeos falsos e ‘slopaganda’ que manipulam narrativas entre Irã, EUA e Rússia
Em campanhas coordenadas e virais, governos usam inteligência artificial para fabricar cenas, humilhar adversários e driblar moderação nas redes sociais
Em meio a confrontos diplomáticos e militares que envolvem Irã, Estados Unidos, Israel e Rússia, a inteligência artificial deixou de ser apenas ferramenta de produção para tornar-se um instrumento de propaganda e desinformação em escala. Vídeos inteiramente fabricados — de ataques que nunca aconteceram a cenas caricatas que ridicularizam líderes — circulam com rapidez nas redes sociais e muitas vezes são republicados por usuários influentes, inclusive por canais oficiais.
O que é ‘slopaganda’ e por que viraliza
Pesquisadores e analistas definem como “slopaganda” um novo tipo de conteúdo: produções geradas por IA que podem ser toscas, humorísticas ou absurdas, mas têm alto potencial de compartilhamento. O termo deriva de “AI slop” — vídeos rápidos, de baixo custo, pensados para entreter e engajar. A lógica é simples: transformar a informação em produto consumível, suavizar a violência e infantilizar o adversário para atrair curtidas e repasses.
“Propagandas de Estados sempre existiram, mas hoje as guerras são travadas também nas redes sociais”, diz Matheus Soares, coordenador do Aláfia Lab, laboratório brasileiro que estuda a intersecção entre tecnologias digitais, comunicação e política. Para ele, o uso de IA amplia a capacidade de criar narrativas emocionais que confundem o debate público e mobilizam apoio.
Exemplos recentes e táticas usadas
Nos últimos meses, vídeos gerados por IA mostraram líderes transformados em desenhos animados, cenários de batalhas que não ocorreram e até montagens que sugeriam rendições inimigas inexistentes. No caso do Irã, clipes satíricos e caricatas viralizaram com mensagens de força e humilhação ao oponente; alguns canais pró-Irã chegaram a ser suspensos por plataformas como o YouTube após ampla divulgação.
Em outro episódio, um vídeo falso apresentava Gaza como um tipo de resort futurista — não criado por órgãos oficiais, mas compartilhado por personalidades políticas de peso, aumentando seu alcance. A Rússia também foi apontada por difundir montagens que simulavam derrotas ucranianas. O objetivo comum é claro: gerar sensação de poder, desmoralizar o inimigo e, frequentemente, confundir sobre o que é fato.
Por que a estratégia não é totalmente inédita
A utilização de imagens e animações para fins de propaganda tem raízes históricas. Desde a Primeira Guerra Mundial até o uso massivo durante a Segunda Guerra Mundial, governos empregaram desenhos e filmes para mobilizar populações e moldar percepções. O que muda agora é a velocidade, o custo e a escala: tecnologias de geração de imagem e vídeo tornam possível produzir clipes virais em minutos, sem estúdios ou grandes orçamentos.
Impactos na opinião pública e nas plataformas
Ao apostar no apelo emocional — raiva, orgulho, ridicularização — esses vídeos conseguem driblar políticas de moderação e espalhar-se além das fronteiras. A consequência é dupla: por um lado, a circulação massiva reduz a importância da verificação factual; por outro, a “brincadeira” pode mascarar crimes, operações militares ou atrocidades reais, dificultando a responsabilização e o debate público informado.
Especialistas defendem maior investimento em checagem automatizada e humana, maior transparência das plataformas quanto a contas promovidas por estados e campanhas coordenadas, e programas de alfabetização midiática para usuários. Sem isso, a desconfiança generalizada e a normalização do falso como entretenimento podem corroer ainda mais a capacidade da sociedade de distinguir fato de ficção.
Em resumo, a IA não apenas incrementou uma velha técnica de guerra psicológica: ela a transformou em algo mais barato, rápido e viral. O desafio agora é adaptar políticas públicas, ferramentas técnicas e práticas de jornalismo para conter danos sem sufocar a livre expressão — e ensinar o público a desconfiar de clipes que parecem demais com um meme para ser verdade.
