Bill Gates diz que Jeffrey Epstein tentou chantageá‑lo por casos extraconjugais; depoimento à comissão da Câmara detalha contatos e investigação
Gates prestou depoimento privado ao Comitê de Supervisão e Reforma Governamental que apura atuação do Departamento de Justiça no caso Epstein; documentos mostram encontros posteriores à condenação de 2008
O bilionário Bill Gates afirmou em depoimento ao Congresso dos Estados Unidos que o financista Jeffrey Epstein tentou chantageá‑lo com informações sobre seus casos extraconjugais. O fundador da Microsoft disse também que não entendeu totalmente a extensão dos crimes de Epstein quando manteve contatos com ele para discutir iniciativas filantrópicas.
Depoimento e acusação de chantagem
Gates prestou depoimento de forma privada nesta quarta‑feira (10) ao Comitê de Supervisão e Reforma Governamental da Câmara dos Representantes, que investiga como o Departamento de Justiça lidou com os processos relacionados a Epstein. Segundo uma cópia da declaração de abertura citada pela Reuters, Gates afirmou que nunca presenciou qualquer conduta criminosa por parte de Epstein, mas disse que o financista tentou usar informações sobre suas infidelidades — e “muitas mentiras que acrescentou” — para pressioná‑lo a retomar o contato.
“Esses casos não tinham nada a ver com minhas interações com Epstein, mas foram dolorosos para minha família”, disse Gates na declaração.
Encontros posteriores à condenação e documentos divulgados
Documentos liberados pelo Departamento de Justiça neste ano mostraram que Gates e Epstein se encontraram repetidamente após a condenação de Epstein, em 2008, por uma acusação estadual de prostituição na Flórida, que resultou em 13 meses de prisão. Os registros indicam que os encontros envolveram discussões sobre possíveis iniciativas filantrópicas e projetos sociais.
Também foram divulgadas fotografias de Gates ao lado de mulheres cujos rostos foram ocultados nos arquivos, além de e‑mails trocados entre Epstein e funcionários da Fundação Gates. A divulgação de milhões de documentos internos relacionados a Epstein expôs relações do financista com diversas figuras influentes da política, dos negócios, das finanças e da academia.
Preparação do depoimento e ligação com investigações do Congresso
O presidente republicano do comitê, deputado James Comer, pediu em março que Gates comparecesse para uma entrevista presencial transcrita. Para se preparar, Gates contratou Jake Greenberg, que foi principal investigador do comitê até dezembro. O New York Times informou sobre a contratação, e um porta‑voz do painel disse à Reuters que o comitê não trabalha mais com Greenberg desde sua saída.
Gates já afirmou publicamente que manter contato com Epstein foi um erro. Em fevereiro, em reunião com funcionários da Fundação Gates, o empresário “assumiu a responsabilidade por suas ações”, segundo um porta‑voz da organização.
Impacto sobre a Fundação Gates e o foco da investigação
A relação entre Gates e Epstein levou a Fundação Gates a iniciar uma revisão externa sobre os contatos do bilionário com o financista. Além disso, a comissão da Câmara investiga diversos aspectos do caso Epstein: a atuação das autoridades em investigações e processos judiciais, acordos firmados, a morte de Epstein em 2019, falhas no combate ao tráfico sexual, questões éticas e atrasos na divulgação de documentos oficiais.
Epstein foi novamente acusado por promotores federais em 2019 de tráfico sexual de menores; ele negou as acusações e morreu na prisão no mesmo ano, em um episódio classificado como suicídio pelas autoridades antes do início do julgamento.
Os documentos públicos revelaram conexões do financista com nomes proeminentes, incluindo referência ao então empresário e hoje ex‑presidente Donald Trump, além de discussões sobre a atuação da ex‑procuradora‑geral Pam Bondi, que enfrentou críticas por sua condução do caso.
O depoimento de Gates integra um esforço maior do Congresso para entender como autoridades federais trataram Epstein e seus associados, bem como o alcance das falhas institucionais no combate ao tráfico sexual. A comissão pretende esclarecer por que acordos e decisões judiciais anteriores permitiram que Epstein mantivesse contatos e influência por anos, e se houve omissões que prejudicaram vítimas.
Em suas colocações, Gates reiterou que suas interações com Epstein se limitaram a discussões sobre filantropia e que foi um erro mantê‑las. Mas afirmou que a tentativa de chantagem feita por Epstein agravou o impacto pessoal do episódio e pressionou sua família durante o período em que os contatos ocorreram.
