Por que o alerta extremo da Defesa Civil chegou a alguns bairros e a outros não: entenda Cell Broadcast, antenas (ERB) e a invasão que disparou a palavra ‘misantropia’

PUBLICIDADE

Por que o alerta extremo da Defesa Civil chegou a alguns bairros e a outros não

O aviso não é entregue pelo endereço do celular, mas por áreas desenhadas no sistema e pelas antenas que atendem esses locais — por isso a experiência pode variar dentro de uma mesma cidade

O alerta de Alerta Extremo enviado pela Defesa Civil Nacional na madrugada que trouxe a palavra “misantropia” atingiu celulares de diferentes regiões do país e despertou uma pergunta comum: por que vizinhos e moradores de bairros próximos tiveram experiências diferentes — alguns ouviram o aviso em volume alto, outros não receberam nada?

Como o sistema funciona: Cell Broadcast e seleção de áreas

O mecanismo usado pelo sistema Defesa Civil Alerta é a tecnologia Cell Broadcast, que possibilita o envio de mensagens emergenciais para todos os celulares conectados à rede móvel em uma determinada área. Diferente de aplicativos de mapa ou serviços que usam a localização exata do aparelho, o sistema opera a partir de uma área desenhada por técnicos em um mapa ou pela seleção de um município em uma lista pré-configurada.

Segundo Thiago Ayub, diretor de tecnologia da Sage Networks, os comandos determinam quais antenas de telefonia celular — chamadas tecnicamente de ERB (Estação Rádio Base) — devem distribuir o alerta. Assim, o envio é atrelado à cobertura das antenas escolhidas no momento do disparo, e não a um recibo de entrega individual para cada aparelho.

Por que bairros e cidades vizinhas podem ter resultados diferentes

A distribuição por antena explica o fenômeno em que, em uma mesma cidade, alguns bairros entram no recorte do disparo e outros ficam fora. Se a área selecionada pelos operadores não cobrir todo o município, parte da população não será alcançada. Em regiões metropolitanas a diferença pode ser ainda mais perceptível: uma cidade pode receber o aviso e a vizinha, anexada geograficamente, ficar fora, dependendo de quais antenas foram incluídas.

Além disso, as antenas não respeitam necessariamente as linhas administrativas das cidades e bairros. Um aparelho perto da divisa pode ser atendido por uma antena instalada em outro município e, por isso, receber um alerta destinado à região atendida por essa antena.

Fatores que podem impedir o recebimento do alerta

Além da definição das áreas e das antenas, há outros motivos técnicos e de configuração que podem fazer com que uma pessoa não receba o alerta:

  • Celular sem sinal no momento do disparo, em modo avião ou conectado apenas ao Wi-Fi;
  • Aparelho muito antigo, modelos importados sem homologação da Anatel ou telefones incompatíveis com a tecnologia Cell Broadcast;
  • Usuário que desativou alertas de emergência nas configurações do telefone;
  • Celulares sem suporte a VoLTE ou conectados a antenas sem esse recurso, que podem não receber o alerta se estiverem em uma ligação longa;
  • Antena que não foi incluída no recorte do disparo, apesar do usuário estar fisicamente dentro da área esperada.

É importante frisar que o sistema foi desenvolvido para funcionar pela rede móvel sem depender de internet, aplicativo ou cadastro prévio do usuário.

O disparo indevido, investigação e limitações da auditoria

No caso do aviso indevido enviado entre a noite de sexta-feira (19) e a madrugada de sábado (20), a Defesa Civil Nacional informou que a plataforma foi retirada do ar por volta de 1h30 após sofrer uma invasão. O órgão afirmou que o disparo foi feito remotamente por alguém de fora do Sistema Nacional de Proteção e Defesa Civil e informou que a Polícia Federal será acionada.

Do ponto de vista técnico, o histórico de comandos do sistema permite auditar quais antenas foram acionadas, em que horário e por quais áreas o alerta foi distribuído. Essas informações ajudam a identificar as regiões que foram efetivamente alcançadas pela ação indevida.

Contudo, há uma limitação relevante: não existe um recibo individual de entrega para cada aparelho. Ou seja, é possível confirmar quais antenas participaram da distribuição do alerta e estimar as áreas impactadas, mas não é garantido poder afirmar, registro por registro, qual celular recebeu ou visualizou a mensagem.

Por isso, a investigação poderá apontar quais áreas e antenas foram utilizadas no disparo, mas a experiência final de cada morador — ter ouvido ou não o aviso — depende do momento em que seu aparelho estava conectado à rede, da antena em uso e das configurações e capacidades do telefone.

A reportagem procurou o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR), responsável pela Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil, para obter detalhes sobre as áreas selecionadas no disparo indevido, estimativa de aparelhos alcançados e andamento da investigação. Qualquer atualização será divulgada conforme respostas oficiais.

Enquanto as apurações continuam, técnicos ressaltam que o comportamento aparentemente irregular do sistema — em que vizinhos próximos têm experiências diferentes — é consequência direta da forma como Cell Broadcast opera: por antenas e áreas geográficas selecionadas, não por posicionamento individual do aparelho.

Mais recentes

PUBLICIDADE