Agentes do OnlyFans controlam contas, retêm metade dos ganhos e ameaçam modelos, revela investigação da BBC
Dezenas de criadoras afirmam ter sido exploradas por gestores que prometiam aumentar lucros, mas impediam acesso, cobravam percentuais elevados e usavam intimidação
Uma investigação da BBC reuniu relatos de dezenas de criadoras de conteúdo no OnlyFans que dizem ter sido exploradas por agentes — chamados por algumas usuárias de gestores ou “OFMs” — que assumiam controle das contas, retinham grande parte dos ganhos e recorriam a ameaças e violência para impor contratos.
Como os gestores passam a controlar perfis
Segundo depoimentos, as táticas variam: alguns gestores pedem que a criadora lhe forneça um e-mail e senha, criando assim o acesso principal; outros exigem contratos que autorizam alteração do e‑mail vinculado ao perfil, controle das configurações e direito a 50% dos rendimentos, já com desconto da taxa cobrada pela plataforma.
Um exemplo relatado à BBC mostra que, mesmo quando a plataforma diz adotar processos de verificação e monitoramento, falhas ocorrem. Em teste, uma repórter da BBC criou uma conta com fotografia verificada e conseguiu cadastrar dados bancários de um colega para receber pagamentos de teste. O OnlyFans respondeu que, no Reino Unido, prestadores terceirizados realizam checagens quando há pedido de saque e que pagamentos são rejeitados se a verificação falhar.
Ameaças, violência e extorsão
As consequências para quem tenta romper com esses gestores podem ser graves. Rebecca — nome usado pela BBC — diz que, após mudar a senha da própria conta porque uma amiga teve o acesso alterado sem consentimento, passou a receber ligações e mensagens abusivas. “Ele estava me enviando o meu próprio endereço e dizendo que iria arrastar eu e minha filha pelos cabelos”, relata. Em mensagens mostradas à reportagem havia xingamentos e ameaças diretas.
Poucos dias depois, um tijolo foi arremessado contra a janela da casa de Rebecca; semanas mais tarde, dois homens mascarados a agrediram. Ela acredita que o gestor estava por trás dos episódios e afirma que, por medo, não chegou a relacionar a ocorrência à agência do OnlyFans ao chamar a polícia.
Outra mulher, que preferiu não se identificar, conta que inicialmente repassava de 35% a 40% de seus ganhos ao gestor, mas que, quando quis reduzir a comissão, foi informada de que teria de pagar 10 mil libras (cerca de R$ 74 mil) pelo trabalho investido — e recebeu mensagens do tipo “você receberá o que merece”. Esses relatos incluem também pressão para produzir conteúdo mais explícito do que as criadoras queriam.
Leanne, de 33 anos, assinou um contrato que dava ao gestor acesso total e 50% dos ganhos. Mesmo deixando claro que não faria vídeos sexualmente explícitos, foi pressionada até gravar um vídeo contra sua vontade, que depois descobriu ter sido vendido por muito menos do combinado. Ela descreve sentimento de náusea e humilhação e deixou a plataforma.
Denúncias à plataforma e resposta oficial
A BBC encontrou relatos de criadoras que tentaram alertar o OnlyFans sobre grupos e fóruns em que agentes compravam e vendiam contratos sem o conhecimento das modelos. Riley, outra criadora, enviou à plataforma links e capturas de tela do grupo OFM Empire mostrando práticas exploratórias, mas foi informada de que não havia evidências suficientes para ação imediata.
O OnlyFans afirmou à reportagem que adota “processos rigorosos de verificação de novos usuários, controles de pagamento e monitoramento contínuo das contas” e que, quando surgem preocupações, restringe o acesso, abre investigação e toma medidas para garantir que o criador esteja no controle do perfil. Também disse que denúncias devem ser encaminhadas à plataforma e, quando necessário, à polícia.
Autoridades, riscos legais e pedido por regulação
Autoridades independentes e reguladores consideram os relatos alarmantes. Baroness Louise Casey Lyons, comissária independente contra a escravidão moderna no Reino Unido, afirmou que o OnlyFans tem obrigação legal de proteger usuários contra conteúdo ilegal e agir rapidamente ao tomar conhecimento de exploração. Lyons disse ter discutido o tema com o Ofcom e formuladores de políticas, pedindo atenção e medidas, como fiscalização mais rigorosa ou até sistema de licenciamento para agentes.
O Ofcom classificou como “profundamente preocupantes” os relatos e destacou que plataformas reguladas devem avaliar riscos de uso para facilitar crimes. Porém, lembrou que crimes cometidos inteiramente fora do ambiente digital não estão cobertos pela Lei de Segurança Online.
Advogados também apontam risco para a plataforma: Josh Kemp, do escritório Kingsley Napley, disse que o OnlyFans tem dever de cuidado em relação às criadoras e que, com base nas evidências reunidas pela BBC, é apenas questão de tempo até que enfrentem ações por negligência movidas por criadoras que sofreram danos.
Entre criadoras de maior visibilidade, há quem peça mudança estrutural. Lily Phillips, uma das mais bem remuneradas no Reino Unido, afirmou que a falta de regulação cria um ambiente perigoso em que pessoas vulneráveis podem ser exploradas por quem quer “uma fatia” desse mercado.
As denuncias reforçam um quadro em que modelos relatam perda de autonomia sobre o próprio conteúdo e renda, além de riscos físicos e psicológicos. Algumas, como Rebecca, buscaram alternativas e hoje trabalham com agências geridas por mulheres, o que lhe trouxe sensação de segurança. Ainda assim, especialistas e ativistas pressionam por fiscalização, mecanismos de denúncia mais eficazes e responsabilização de agentes predatórios.
Enquanto isso, o debate sobre proteção, regulação e responsabilidade das plataformas segue no centro das discussões entre criadores, autoridades e operadores econômicos do setor, com impacto direto sobre a segurança e os direitos de quem produz conteúdo online.
