Como propaganda em IA do Irã usa estética ‘Lego’ para viralizar a guerra e espalhar narrativas falsas

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Como propaganda em IA do Irã usa estética ‘Lego’ para viralizar a guerra e espalhar narrativas falsas

Clipes viralizam nas redes ao misturar linguagem visual familiar com mensagens pró-Irã; operador admite que governo iraniano é cliente

Vídeos curtos gerados por inteligência artificial, com estética que remete a blocos plásticos do tipo Lego, têm circulado em massa nas redes sociais desde o início do conflito entre Estados Unidos e Irã. Chamativos e de fácil compartilhamento, os clipes apresentam cenas grafiadas — crianças morrendo, caças abatidos, figuras públicas como Donald Trump — e promovem uma narrativa em que o Irã é retratado como resistência a um “opressor global”.

Como são feitos os vídeos

Segundo entrevistas e apurações publicadas por veículos internacionais, boa parte do conteúdo tem origem na conta conhecida como Explosive Media. O responsável pela operação, identificado como “Sr. Explosive” em uma reportagem, descreve uma equipe reduzida que usa modelos de IA treinados com dados ocidentais para produzir clipes em linguagem visual simples e reconhecível.

O formato escolhido — blocos coloridos, movimentos rápidos e trilhas sonoras pop ou de rap — é deliberado: a estética “infantil” contrasta com cenas de violência, tornando o material chocante e, ao mesmo tempo, amplamente legível para públicos fora do Oriente Médio. Contas estatais iranianas e russas amplificam os vídeos, contribuindo para alcance em milhões de exibições.

Mentiras, imprecisões e teorias conspiratórias

Muitos clipes misturam fatos, meias-verdades e invenções. Em um caso amplamente compartilhado, um vídeo mostra o Exército iraniano capturando um piloto americano abatido — representação que contrasta com declarações oficiais dos EUA: o aviador teria sido resgatado por forças especiais e estava recebendo atendimento em um país vizinho.

Outros materiais repetem teorias sem base, como ligações sensacionalistas entre figuras públicas e supostas práticas criminosas, ou a ideia de que operações americanas tinham por objetivo roubar urânio do Irã. Em alguns vídeos, referências ao chamado “arquivo Epstein” e imagens que evocam violência racial (por exemplo, a figura de George Floyd) são usadas para amplificar ressentimentos e atrair audiências ocidentais com acabamento culturalmente familiar.

Especialistas consultados descrevem esse conteúdo como uma versão sofisticada de propaganda: o termo “slopaganda” — cunhado em literatura acadêmica para designar propaganda gerada por IA de baixa qualidade — é considerado insuficiente para capturar a eficácia e refinamento atual dessas produções.

Quem está por trás e qual é o objetivo

Apesar de inicialmente alegar independência, o operador ligado à Explosive Media acabou admitindo que o governo iraniano é um “cliente” da empresa. A operação, segundo a reportagem, teria sido contratada para projetos institucionais e para atingir públicos em inglês e outras línguas ocidentais.

O objetivo declarado por seus criadores é apresentar o Irã como ator que busca justiça e verdade frente a poderes que, segundo a narrativa, cometem crimes e abusos. Em discursos públicos, os responsáveis rejeitam acusações de antissemitismo, classificando suas imagens como “antissionistas”. Críticos alertam, porém, que algumas representações recorrem a clichês e símbolos que podem alimentar ódio e estigmatização.

Por que a estratégia funciona — e os riscos

A combinação de estética simples, conteúdo emocionalmente carregado e uso de ferramentas de IA treinadas com materiais ocidentais cria uma fórmula eficaz para viralização. Especialistas em propaganda digital afirmam que essas produções permitem a atores estatais falar diretamente com audiências estrangeiras, sem passar por meios tradicionais de imprensa — uma espécie de “diplomacia pela internet”.

Plataformas de redes sociais têm removido contas e clipes associados a essa rede, mas novas contas reaparecem com rapidez, mantendo o fluxo de conteúdo. A propagação contínua aumenta o risco de confusão pública, reforço de narrativas falsas e potencial escalada de tensões, já que vídeos são publicados em tempo real e muitas vezes aparecem antes de anúncios oficiais ou verificações independentes.

Contexto maior e consequências

O surgimento e a expansão desses vídeos coincidem com episódios recentes de repressão interna no Irã: antes da guerra, manifestações massivas foram duramente reprimidas, com organizações de direitos humanos relatando milhares de mortos. A agência iraniana HRANA chegou a estimar pelo menos 7.000 civis mortos durante a repressão.

Além disso, o acesso à internet dentro do Irã é severamente controlado — a maioria da população enfrenta bloqueios e restrições — o que indica que a audiência primária visada por essas campanhas é externa, especialmente em regiões onde a língua e referências culturais ocidentais são compreendidas.

Para leitores e plataformas, o desafio é reconhecer a eficiência crescente de narrativas visuais politizadas e manter práticas de verificação diante de um fluxo contínuo de conteúdo gerado por IA. A rápida reaparição de contas e a adaptação das táticas demonstram que a batalha por atenção nas redes será, provavelmente, um elemento duradouro das crises geopolíticas contemporâneas.

Esta reportagem foi produzida com base em apurações publicadas por meios internacionais e entrevistas citadas nas fontes originais.

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