Discord explicado: como a plataforma usada pela suspeita de vender vídeos de tortura a animais funciona, quais os riscos e como pais podem se proteger

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Discord explicado: como a plataforma usada pela suspeita de vender vídeos de tortura a animais funciona, quais os riscos e como pais podem se proteger

O caso que chamou atenção: suspeita gravava e comercializava agressões a animais via Discord

A Polícia Civil de São Paulo prendeu, na quinta-feira (28), a empresária Daiana Schuinsekel de Almeida, suspeita de torturar e matar animais para gravar e vender vídeos pela plataforma Discord. Segundo as investigações, Daiana teria filmado as agressões — em que aparece esmagando animais com pés e mãos — e comercializado o material para compradores, em sua maioria no exterior.

Ela foi liberada horas depois porque os celulares apreendidos não puderam ser acessados, o que impediu a configuração de flagrante. A suspeita responderá em liberdade pelos crimes de maus-tratos a animais e atos obscenos, conforme informações divulgadas pela polícia e pela TV Globo.

Por que o caso envolve o Discord

De acordo com a polícia, a plataforma teria sido usada tanto para divulgar quanto para negociar os vídeos. O episódio reacende discussões sobre como o Discord funciona, quem usa e quais conteúdos problemáticos circulam em comunidades privadas.

O que é o Discord e como funciona

O Discord é uma plataforma de comunicação digital criada em 2015 pelos empresários Jason Citron e Stanislav Vishnevskiy. Originalmente pensada para jogadores, a rede permite conversas por texto, voz e vídeo, além de transmissões ao vivo em servidores privados ou públicos.

Segundo a própria empresa, o app atingiu 200 milhões de usuários mensais globalmente — a maioria envolvida em jogos online — e expansão de públicos durante a pandemia levou a usos além do universo gamer, como cursos, trabalho remoto e grupos de interesse.

Há uma versão gratuita e planos pagos — chamados Nitro — que oferecem recursos extras, como envio de arquivos maiores e emojis personalizados.

Características que facilitam uso indevido

  • Privacidade e grupos fechados: o Discord facilita a criação de comunidades privadas (servidores) com controles de acesso, o que reduz visibilidade pública das atividades.
  • Moderação descentralizada: a moderação é, em grande parte, feita pelos criadores ou moderadores de cada servidor, o que pode tornar difícil a detecção e remoção de conteúdos ilícitos.
  • Transmissões ao vivo e mídia: recursos de vídeo e streaming permitem que agressões ou chantagens sejam transmitidas em tempo real ou gravadas para venda.

Riscos para adolescentes e crimes já documentados

Plataformas com grupos privados e transmissões ao vivo têm sido usadas por criminosos para praticar extorsão e abuso: há relatos de chantagens em que vítimas são coagidas a cumprir desafios sob ameaça de vazamento de fotos íntimas. Em reportagem do Fantástico, a promotora Maria Fernanda Balsalobra alertou que, na maioria dos casos, os autores são adultos que se aproveitam da vulnerabilidade de menores.

Além disso, pesquisas e reportagens apontam a presença no Discord de comunidades associadas a ideologias extremas, movimentos contraculturais (como incel), grupos de hackers e debates sobre criptomoedas, o que amplia a variedade de conteúdos potencialmente nocivos.

O papel da tecnologia: explicação de especialistas

Thiago Ayub, diretor de tecnologia da Sage Networks, explica que a combinação entre popularidade entre jovens, facilidade para criar grupos privados e moderação descentralizada torna a plataforma propícia a abusos. Isso dificulta o monitoramento pelos responsáveis e pelas próprias autoridades.

Central da Família: o que faz e como ativar

Em setembro de 2023, o Discord lançou a “Central da Família” (Family Center), uma ferramenta que permite a responsáveis acompanhar parte das atividades de adolescentes na plataforma. A funcionalidade mostra com quem o jovem conversa e de quais comunidades participa, mas não permite visualizar o conteúdo das mensagens.

  1. Tenha o aplicativo Discord instalado no celular do responsável e do adolescente.
  2. No app do responsável, acesse “Central da Família” em “Configurações do usuário” e escolha “ativar Central da Família”.
  3. No app do adolescente, gere o código QR em “Conectar com o pai” e disponibilize ao responsável.
  4. O responsável escaneia o QR com seu app e, após o adolescente aceitar a conexão, ambos terão acesso à Central da Família.

O Discord orienta que a ativação seja feita em conjunto com o adolescente, já que a atividade da conta não será compartilhada sem a aprovação dele.

Como agir — orientações práticas para pais e responsáveis

  • Mantenha diálogo aberto com o adolescente sobre riscos online e sobre o comportamento em comunidades fechadas.
  • Ative a Central da Família em conjunto com seu filho e monitore participações em servidores desconhecidos.
  • Evite compartilhar senhas ou autorizações sem supervisão e oriente sobre não aceitar convites suspeitos.
  • Ao encontrar conteúdo ilegal (abuso, tortura, exploração sexual), registre evidências e denuncie imediatamente à polícia e ao próprio Discord.
  • Busque apoio de organizações e serviços especializados em segurança digital e proteção de crianças e adolescentes quando necessário.

O caso envolvendo a suspeita de venda de vídeos de maus-tratos reacende a necessidade de atenção a plataformas que possibilitam grupos fechados e transmissões em tempo real. Violência e exploração são crimes: além de medidas de proteção individuais, especialistas apontam a necessidade de políticas públicas e de ferramentas mais eficazes de moderação por parte das empresas.

Fontes: Polícia Civil de São Paulo, reportagens do Fantástico e TV Globo, informações oficiais do Discord e análises da Wired e da agência DW.

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