Influencer usou IA para sexualizar adolescente de 16 anos em cultos da CCB; polícia investiga deepfake e família pede indenização
Imagens de jovens evangélicas foram manipuladas com ferramentas de inteligência artificial e publicadas em redes sociais; investigado nega intenção ofensiva e diz produzir conteúdo humorístico
Uma adolescente de 16 anos procurou a Polícia Civil de São Paulo após descobrir que uma foto sua, registrada durante um momento de fé em frente ao altar da Congregação Cristã do Brasil (CCB), foi usada sem autorização em um vídeo criado por inteligência artificial (IA) com conotação sexual. A gravação foi atribuída ao influenciador digital Jefferson de Souza, que publica conteúdo sobre a igreja em canais nas redes sociais e é alvo de inquérito aberto pela 8ª Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), em São Mateus.
O que ocorreu
Segundo o relato da jovem, Jefferson “pegou a minha foto sem autorização e fez uma montagem com inteligência artificial, com as mulheres sensualizando na frente e [comigo] junto a elas”. A imagem usada na montagem é de 2025 e foi tirada dentro da igreja. A adolescente afirmou ao g1 que deixou de tirar fotografias e passou a se preocupar com o convívio social após a exposição.
O material manipulado insere a foto da adolescente e de outras mulheres em vídeos em que as figuras dançam ou aparecem em poses consideradas sensuais. Em alguns casos, Jefferson combina as montagens com hinos da CCB como trilha sonora e faz críticas às roupas das frequentadoras. As publicações estavam em perfis do influenciador com alcance significativo — juntos, os perfis reúnem dezenas de milhares de seguidores.
Investigação e enquadramento legal
A polícia apura se houve crime de simular cena de sexo ou pornografia com menor de 18 anos por meio digital, previsto no artigo 241‑C do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), cuja pena pode variar de 1 a 3 anos de reclusão, além de multa. A investigação também verifica possível difamação contra outras jovens expostas nas montagens.
A delegada Juliana Raite Menezes, da 8ª DDM, afirmou que algumas vítimas já foram identificadas e pediu que outras jovens atingidas procurem a delegacia: “A internet não é uma terra sem lei. As leis que nos protegem no mundo real também se aplicam no ambiente virtual.” O inquérito foi encaminhado pela 1ª Vara de Crimes Praticados contra Crianças e Adolescentes de São Paulo à 2ª Vara da Comarca de Lençóis Paulista, onde o investigado mora.
Repercussão familiar e ação civil
Para a família da adolescente, a exposição teve impacto profundo. A mãe afirma que “tira o sono”, e o pai destacou que há “uma quantidade enorme de vítimas” atingidas pelas manipulações. A família entrou com ação judicial pedindo indenização por dano moral. O advogado William Valvasori avaliou que a apuração e o processo têm caráter educativo.
Resposta do influenciador, plataformas e especialistas
Jefferson de Souza, de 37 anos, chegou a gravar um vídeo em que pede desculpas por críticas feitas à CCB, mas não mencionou explicitamente os vídeos com deepfakes envolvendo adolescentes. Em depoimento por carta precatória, admitiu usar fotos de frequentadoras e ferramentas de edição e afirmou que acreditava tratar‑se de pessoas adultas em razão do porte físico. Também disse produzir “conteúdo humorístico” e que não teve intenção específica de ofender fora do contexto religioso.
Plataformas foram acionadas: o TikTok informou adotar tolerância zero para exploração sexual infantil e remover conteúdos desse tipo; o YouTube afirmou ter retirado vídeos que violavam suas diretrizes. A Meta (Instagram e Facebook) não havia se manifestado até a última atualização desta reportagem.
Especialistas consultados afirmam que o uso de IA não afasta a responsabilidade de quem cria e divulga material manipulador. A pesquisadora Laura Hauser (PUC‑SP) destacou que “não é a vítima que tem que se cuidar. O predador que deve ser intimado a melhorar.” Juliana Cunha, da SaferNet, alertou para o potencial de crescimento desse tipo de violência com a evolução tecnológica e ressaltou a importância de levantar dados para influenciar políticas públicas e legislação.
Posição da CCB e próximos passos
A Congregação Cristã do Brasil informou não ter registro formal de membros e declarou apoio a “medidas legais cabíveis” preservando a individualidade e o respeito às pessoas. As autoridades policiais seguem buscando identificar e localizar outras possíveis vítimas para ampliar a investigação.
Enquanto isso, a família da adolescente e outras jovens afetadas tentam remover conteúdos e tomar medidas legais. A delegacia reforça o convite para que vítimas procurem a DDM para formalizar denúncias e ajudar na apuração.
Atualização: as informações sobre remoção de vídeos e posicionamentos das plataformas valem até a data desta publicação; as apurações continuam em andamento e poderão gerar novos desdobramentos judiciais.
