Mina the Hollower é atemporal e um JOGAÇO: review completo do indie que promete figurar entre os clássicos
Depois de 20 horas de jogo, o novo projeto da Yacht Club Games se mostra mais do que homenagem — é uma experiência autoral, madura e potencial candidato a jogo do ano
Mina the Hollower chegou com muita expectativa em 2026: além de ser o novo título da Yacht Club Games, estúdio conhecido por Shovel Knight, sua demo já havia gerado grande expectativa entre fãs de jogos com estética retrô. Depois de uma campanha de cerca de 20 horas, o veredito é claro: trata‑se de um dos melhores indies recentes — um jogo que parece nascer atemporal.
Uma narrativa mais profunda do que aparenta
A princípio, Mina pode passar como um game inspirado na estética de clássicos de 8 bits e na simplicidade narrativa dos jogos antigos. Mas a história se mostra mais trabalhada do que se imagina: acompanhamos Mina, uma “hollower” — uma espécie de escavadora e cientista pertencente à guilda dos exploradores — chamada de volta à ilha que ajudou a transformar anos atrás.
Ela é convocada por Lionel, barão da cidade, para investigar falhas em geradores que trouxeram prosperidade à região, agora em declínio. O antagonista aparente, Thorne, é um ex-ajudante com argumentos que empurram o enredo para temas como equilíbrio entre tecnologia e natureza e escolhas morais ambíguas. A narrativa não dá respostas fáceis e deixa o jogador refletir sobre consequências e responsabilidade — não é um conto profundo ao estilo de um RPG moderno, mas entrega reviravoltas, diálogos e sutilezas muito acima do que a aparência inicial sugere.
Mundo aberto desde cedo, sem mãozinha: liberdade que exige exploração
Um dos traços marcantes de Mina the Hollower é a sensação de abertura desde os primeiros momentos: após uma seção inicial relativamente linear, a primeira cidade (Ossex) abre as portas para exploração livre. O jogo não segura a sua mão — não há mapinha automático que marque cada objetivo, nem tutoriais invasivos. Em vez disso, o jornal da cidade e conversas com NPCs dão pistas e cabe ao jogador vasculhar o mapa à procura de segredos, lojas e linhas de quests.
Essa abordagem funciona como uma faca de dois gumes. Nas primeiras horas pode parecer confuso ou até frustrante por exigir um pouco de tentativa e erro. Mas, à medida que você descobre sistemas como o minimapa, pontos de viagem rápida e upgrades, a recompensa pela exploração se torna evidente: atalhos, NPCs escondidos, áreas alternativas e pequenos contos que enriquecem o mundo.
Em termos de sensações, o design interconectado lembra tanto o que alguns jogos 3D modernos trazem quanto os clássicos de ação e aventura em duas dimensões — pense numa versão 2D de um mundo vivo e interligado, repleto de segredos.
Combate e mecânicas: mistura de Zelda com toques soulslike que funcionam
Na superfície, o combate de Mina the Hollower é simples e direto: ataques em quatro direções e golpes aéreos. Mas há camadas que o transformam em algo bem mais robusto. Mina pode escolher entre várias armas, acessórios e upgrades; cada arma traz particularidades e o conjunto de equipamentos permite uma gama de builds surpreendente para um jogo que, inicialmente, parece truncado.
Elementos inspirados em soulslike aparecem de forma adaptada: as Laborotocas, pontos onde Mina recupera frascos de vida mas também fazem inimigos reaparecerem, lembram muito as fogueiras de Dark Souls. O recurso principal, chamado ossos, é perdido ao morrer e pode ser recuperado em uma única chance — uma dinâmica que gera tensão sem copiar literalmente o sistema original. A cura também tem seus próprios recortes: em vez de regeneração simples, é preciso obter Plasma ao golpear inimigos e então usar frascos.
Um diferencial interessante é a escavação: Mina pode enterrar‑se para evitar ataques ou atravessar o cenário de forma estratégica, funcionando como único mecanismo de evasão em boa parte do jogo. Algumas armas acrescentam ferramentas extras, como escudos, expandindo a oferta de estilos de combate.
O jogo ainda oferece opções de acessibilidade e dificuldade — é possível reduzir dano de quedas, diminuir a potência dos inimigos ou, para os mais audazes, aumentar o desafio. Quem ativar modificadores que facilitam a vida fica impedido de conquistar troféus, uma solução honesta para quem busca experiência mais acessível sem comprometer a competição.
Design de níveis, variedade e momentos de brilho
O que realmente sobressai são as ideias de level design: cada região tem personalidade, com mecânicas próprias que mudam seu modo de jogar. Há áreas com ventos que alteram a física dos pulos, seções onde trovões interferem na exploração e chefes perseguintes que transformam a exploração em fuga. Essas variações mantêm a campanha fresca e tornam cada novo mapa uma pequena surpresa.
Apesar de o combate demorar a “clicar” — por conta da rigidez inicial nos controles e na ausência de esquiva tradicional —, quando as camadas se combinam o resultado é altamente satisfatório. A sensação de progressão, tanto por evolução de personagem quanto por descobertas no mapa, é constante.
Apresentação audiovisual: pixel art com cuidado moderno
Visualmente, Mina the Hollower bebe da estética 8 bits e do legado de jogos portáteis como Game Boy, mas com uma paleta expandida e toques modernos que lembram o que a Yacht Club fez em Shovel Knight. Os retratos, NPCs e cenários são bem trabalhados, e as cutscenes/diálogos têm charme próprio.
Um ponto negativo perceptível é a perspectiva levemente isométrica em alguns trechos, que pode atrapalhar no combate contra inimigos aéreos. Em situações específicas, a altura desses inimigos não fica clara o suficiente, levando a momentos de confusão e frustração. Fora isso, trilha sonora e sonoplastia brilham: faixas originais acompanham a campanha com personalidade e ajudam a dar unidade ao tom melancólico do enredo.
Vale a pena?
Sim. Mina the Hollower surpreende: não é apenas uma homenagem a clássicos, mas uma obra que absorve influências e as reconfigura em algo autoral. Com nível de maturidade notável no design e na narrativa, o título tem potencial para ser lembrado como um clássico moderno do indie. Salvando pequenos problemas de sinalização em algumas quests e a questão dos inimigos aéreos, o jogo entrega uma experiência coesa, desafiadora e muito divertida.
Se procura um indie com identidade, longevidade e sabor retrô sem ser purista, Mina the Hollower é uma aposta certeira — já aparece como forte candidato a jogo do ano e, mais importante, como um projeto que tem tudo para ser revisitável e lembrado ao longo do tempo.
Ficha rápida
Publisher: Yacht Club Games
Desenvolvedora: Yacht Club Games
Plataformas: PC, PS5, PS4, Xbox Series, Xbox One, Switch e Switch 2
Lançamento: 29/05/2026
Tempo de análise: 20 horas
Prós e contras
Prós: narrativa surpreendentemente bem trabalhada; world design interconectado que recompensa exploração; combate que se revela profundo; variedade de builds e upgrades; trilha sonora e pixel art de alto nível.
Contras: pouca orientação nas primeiras horas pode confundir; perspectiva em alguns trechos prejudica identificação de inimigos aéreos; certas missões secundárias podem exigir guia.
Mina the Hollower foi gentilmente cedido pela Yacht Club Games para a realização desta análise.
