Steven Soderbergh entrega cedo sua ‘obra-prima tardia’ com The Christophers — Ian McKellan e Michaela Coel dirigem olhar sobre arte, fama e fraude

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Steven Soderbergh entrega cedo sua ‘obra-prima tardia’ com The Christophers — Ian McKellan e Michaela Coel dirigem olhar sobre arte, fama e fraude

Filme de 100 minutos mistura golpe, relação aluno-mestre e questionamentos sobre autoria em uma narrativa enxuta e introspectiva

Depois de uma sequência de trabalhos de gêneros variados — de thrillers pandêmicos a filmes de espionagem e até uma comédia sobre strippers — Steven Soderbergh retorna a um drama aparentemente contido com The Christophers. Escrito por Ed Solomon, o longa acompanha o encontro entre um pintor lendário em decadência e a jovem que entra em seu círculo com um plano secreto. Limitado a cenários como dois apartamentos e um pub, o filme ganha vida pela direção sutil de Soderbergh e, sobretudo, pelas atuações de Ian McKellan e Michaela Coel.

Enredo e dinâmica entre personagens

The Christophers narra a história de Lori Butler (Michaela Coel), uma recém-formada em artes estagnada profissionalmente que vive de um carrinho de macarrão. Contratada por antigos colegas dos quais recebe instruções misteriosas, ela se torna assistente pessoal de Julian Sklar (Ian McKellan), um artista consagrado que sofreu uma espécie de ‘cancelamento’ público e não vende uma pintura há anos. O plano inicial é simples na sua essência: Lori deve terminar secretamente uma série inacabada de retratos de Julian, conhecidos como os Christophers, para que os filhos do artista, Barnaby (James Corden) e Sallie (Jessica Gunning), possam lucrar com as obras após a morte do pai.

O que parece um golpe comum se transforma em um jogo de poder em que as informações e intenções variam constantemente. Personagens que parecem saber tudo escondem dúvidas; figuras subestimadas revelam impulsos autoritários. Metade da narrativa funciona como um caper — com suspense, reviravoltas e estratégias —, e a outra metade transita para perguntas maiores: o que define um artista? Quem tem direito de interpretar a obra? E até que ponto a obra fala por quem a criou?

Duas atuações que carregam o filme

Apegado a diálogos cortantes e trocas de olhares, The Christophers deposita seu fôlego nas performances de McKellan e Coel. Ian McKellan constrói Julian como um personagem alto no sarcasmo, na provocação e em pequenas perversidades de comportamento — desde rituais excêntricos ao jeito de sexualizar conversas —, mas sua figura bufante esconde inseguranças e fragilidades. A performance transforma excessos de teatralidade em uma máscara plausível para um homem que lida com o próprio legado.

Michaela Coel, por sua vez, adota um registro mais contido. Sua Lori é ambígua: ao mesmo tempo calculista e com lampejos de empatia, mantém linhas profissionais rigorosas enquanto tenta conquistar a confiança de Julian. A alternância entre a meiguice sutil e a determinação fria cria uma tensão constante nas cenas em que os dois dividem o mesmo enquadramento. O contraste entre as formas de atuação dos dois personagens é um dos motores do filme.

Soderbergh: olhar tardio, chegada precoce

É curioso ver Soderbergh, aos 60 e poucos anos, produzir um filme que parece perguntar sobre o valor de uma vida artística — um tom que costuma caracterizar obras de final de carreira. Ainda assim, The Christophers soou para alguns como uma obra-prima de um cineasta que chegou a esse estágio antes do esperado. Sem ostentação técnica, o diretor prefere manter a câmera próxima quando o roteiro exige introspecção e afastada quando o jogo de poder é mais cínico, extraindo humor e amargura das mesmas sequências.

O longa evita aprofundar demais o processo criativo em tela: raramente vemos as pinturas em detalhe ou assistimos a passes de mágica do suposto trabalho de contrafação. Isso pode frustrar quem busca um filme sobre técnica, mas a escolha narrativa é consciente: o foco está nas motivações, nas máscaras e nos efeitos da fama e da crítica sobre a identidade do artista.

O que fica e quando ver

Com cerca de 100 minutos, The Christophers é um exercício de economia dramática que, ao mesmo tempo, permite reviravoltas e mudanças de foco. Parte caper, parte ensaio sobre autoria, o filme rende uma experiência que depende muito de sua disposição em acompanhar sutilezas de atuação e diálogos afiados. Para espectadores atraídos por dramas sobre o mundo da arte e pela observação de personagens em crise, a obra oferece performances que devem figurar entre as mais memoráveis do ano.

O filme estreia em circuito limitado em 10 de abril e chega às salas de todo o país em 17 de abril. Para quem acompanha a carreira de Soderbergh, The Christophers funciona como uma prova de que o diretor ainda tem espaço para experimentos — e que suas reflexões sobre arte podem ter chegado cedo, abrindo caminho para projetos futuros.

Verdict: uma peça dupla — astuciosa no plano do golpe e sincera no plano da autorreflexão — que se sustenta sobretudo nas performances de McKellan e Coel, oferecendo mais perguntas do que respostas sobre o que faz um artista ser lembrado.

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