Trend ‘Caso ela diga não’ no TikTok: vídeos que simulam espancamentos e facadas a mulheres viram alvo da imprensa francesa e acendem debate sobre impunidade no Brasil

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Trend ‘Caso ela diga não’ no TikTok: vídeos que simulam espancamentos e facadas a mulheres viram alvo da imprensa francesa e acendem debate sobre impunidade no Brasil

Reportagens em veículos europeus mostram como publicações que «treinam» agressões a mulheres ganharam visibilidade internacional e alimentam questionamentos sobre responsabilidade de criadores, plataformas e autoridades

O caso que chamou atenção

O episódio que reacendeu a discussão ocorreu em fevereiro, em São Gonçalo (RJ), quando a jovem Alana Anisio Rosa, de 20 anos, sofreu dezenas de facadas e espancamento após recusar investidas de um homem que lhe ofereceu flores e presentes. Ela sobreviveu, passou por várias cirurgias e chegou a ser colocada em coma induzido. O agressor foi identificado e preso em flagrante como Luiz Felipe Sampaio, de 22 anos.

Em entrevistas à imprensa, a mãe de Alana, Jaderluce Anisio de Oliveira, afirmou que o autor se inspirou em vídeos do TikTok que mostram homens atacando manequins e bonecos de treino sob o slogan «treinando caso ela diga não». Essas informações foram citadas por veículos estrangeiros ao repercutirem o caso.

Como a imprensa francesa noticiou a trend

O jornal Le Parisien publicou matéria descrevendo a circulação, no Brasil, de vídeos em que homens «treinam e esfaqueiam bonecos de treino», classificando-os como conteúdo cada vez mais violento e desinibido. O site 20 Minutes destacou que muitos desses vídeos têm milhares de visualizações e que esse tipo de publicação pode ter impacto no aumento das violências contra mulheres no país — que registrou, no ano anterior, 1.586 feminicídios.

A emissora France 24 lembrou episódios recentes que ilustram a gravidade do contexto: em janeiro, um dos envolvidos em um estupro coletivo no Rio de Janeiro apareceu às autoridades usando uma camiseta com os dizeres «Regret Nothing» (não se arrepender de nada), expressão vinculada a influenciadores masculinistas; em fevereiro, o assassinato da policial Gisele Alves Santana foi noticiado em meio a mensagens em que o marido se autodenominava «macho alfa» e exigia comportamento submisso da esposa.

Na rádio France Inter, a cronista Mathilde Serrell comentou que «a ficção se tornou real», referindo-se também à série «Adolescência», cujo enredo trata de um jovem que comete feminicídio após ser rejeitado. A jornalista disse esperar que a repercussão desses casos leve a mudanças legais para combater a misoginia.

Reações nas redes e pressão por responsabilização

Nas redes sociais, além de repúdio à trend e apoio às vítimas, aparecem pedidos para que criadores e disseminadores desses conteúdos sejam identificados e punidos. A plataforma francesa Brut deu espaço à mobilização contrária: vídeos com orientações de como agir diante de investidas indesejadas reforçam a mensagem — «se uma mulher disser não, a melhor resposta possível é respeito», diz um dos posts citados.

Internautas apontam também para a aparente facilidade de comprovar premeditação, já que os autores frequentemente se filmam praticando ou simulando a violência. Comentários repercutidos pela imprensa questionam a demora das autoridades em investigar e sancionar quem produz esse tipo de material.

Debate político e medidas em discussão

O contexto da repercussão internacional também reacende o debate interno sobre o chamado PL da Misoginia, em tramitação na Câmara dos Deputados. O projeto enfrenta resistência de grupos conservadores que tentam enfraquecer o texto, segundo reportagens. Para ativistas e parte da sociedade civil, a tendência de naturalizar ou incentivar a violência de gênero nas redes torna urgente a aprovação de mecanismos legais que ampliem a responsabilização de autores e plataformas.

Especialistas e organizações de defesa dos direitos das mulheres têm pedido ações conjuntas: investigação mais ágil dos crimes inspirados por conteúdos digitais, remoção rápida de publicações que incentivem agressões, e políticas de responsabilização das plataformas. Ao mesmo tempo, setores do poder público e a sociedade civil discutem até que ponto novas normas são necessárias para combater discursos misóginos sem cercear a liberdade de expressão.

Enquanto a repercussão atravessa fronteiras e expõe o fenômeno a um público internacional, famílias de vítimas, movimentos feministas e internautas mantêm pressão sobre autoridades e redes sociais para que medidas efetivas coíbam a circulação de conteúdo que, segundo críticos, pode transformar «ficção» em agressão real.

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